segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Travessia 7C - O Retorno às corcovas do dragão




Durante o ano de 2013  acabamos montando a Equipe Tiamat,  reunião (em número limitado) de trekkeiros de Floripa todos indicados,  com objetivo de formar uma equipe de montanhismo que praticasse com regularidade , gostasse do perrengue e assim teríamos um custo mais baixo pra ir pra montanha e companhia agradável e competente nas empreitadas pela serra. Deu muito certo, as pessoas que foram  sendo indicadas já entravam sabendo que ali não era grupo de passeio pra tirar foto em dia de sol e tampouco seriam  levados pela mão, a responsabilidade era de cada um contando claro com a orientação dos mais antigos.
Natural que depois de fazermos  as montanhas clássicas do Ibitiraquire , Joinville , Araçatuba , Monte crista, Serra dos Órgãos , Conjunto Marumbi completo, PP ,  além de duas idas ao K2 paranaense , o Ciririca (uma de ataque e outra com acamp) o encerramento tinha que ser algo mais desafiador.  insistiu na 7C embora uma travessia pesadíssima e que exige mais que preparo físico, muito mental e logística não só pra atravessar as 7 montanhas mas chegar na estrada da Conceição inteiro pra caminhar mais 7 km (intermináveis) até a fazenda em Bairro Alto.
Como calor de dezembro aumentando e já tendo acontecido a festinha de encerramento da Equipe na casa do Chico Tessaro em Águas Mornas, os trabalhos pra mim estavam finalizados. Quando o alguém  falava em fazer a 7C eu desconversava dizendo que a serra já estava perigosa com tanto calor, bichos peçonhentos e risco de  trovoadas de fim de tarde nos cumes. Mesmo assim a 7C continuava rondando nossas cabeças, foi marcada umas 3 vezes e desmarcada  , veio o natal e parecia fora de cogitação ela acontecer, ainda mais com a onda de calor que se aproximava.
Mas alguma coisa  move os mais intrépidos impedindo que estes se acomodem na zona de conforto, , marcamos novamente  pros dias  28 e 29 de dezembro  e provocou os convocados , escolhidos  dentro da equipe : “ quem vai perder de fechar com chave de ouro a travessia mais nervosa do Ibitiraquire?” Os mais sangue nos olhos nem pensaram duas vezes, deram um passo a frente e deixaram de lado os planos de fim de ano pra enfrentar seus limites, todos deixaram compromissos e a tentação de se dar por satisfeito com o ano cheio de conquistas que tivemos , pra ir enfrentar o maior de todos, a travessia 7C de autoria do meu amigo Elcio Douglas que dispensa apresentações.
Na ultima hora se juntaram a nós o Alvaro Vitto e Jonathan de Curitiba que tinham interesse em conhecer a  pouco conhecida e nada frequentada face leste do Ferraria e ao ver minha postagem de ultima hora no face, entraram na pilha da travessia.
A logístca pensada por nós  era um trajeto cronometrado com horários e cumes a cumprir que não permitiam folga de tempo nem mudança alguma com o risco de não cumprir o objetivo no tempo necessário e estipulado. Todos cientes disso sabiam que  seria preciso muito foco e persistência além da resistência para não ceder ao cansaço e ideias de desistências nos cruzos . O tempo monitorado durante a semana indicava chuva e períodos de nublados nos dois dias com riscos de trovoadas, tempo quente e claro  tinha as jararacas e outros bichos  peçonhentos , o calor e a preucupação com o peso das cargueiras pelo esforço extremo a que seriamos submetidos.
Mas aqui a formatação a que chegamos : saída do Bolinha à 01 da manhã em direção ao Camapuã, o primeiro e exaustivo cume , na sequencia subindo  o Tucum , cume  Cerro Verde bem cedo , poucas paradas pra lanche e abastecimento de água , seguindo pro Itapiroca aonde alcançaríamos o cume às 11 hs ,  já na metade do dia ,descida até o cruzo do Caratuva, subida do Caratuva no meio da tarde e ainda na sequencia alcançar o cume do Taipabuçu  no fim da tarde onde seria feito o pernoite em duas barracas . Para o domingo ficaria a descida do Taipá , subida do Ferraria e descida ao meio dia da face leste do Ferraria, previsão de chegada na Estrada da Conceição ás 17 hs para então caminhar até a fazenda onde o Gera nos esperaria com a Van para o resgate.  Resumindo 6 cumes no primeiro dia e ascensão ao Ferraria , descida face leste e estrada da Conceição no domingo com tempo de pegar os 400 km até Floripa.
E foi exatamente assim que aconteceu, saímos 0:40 da fazenda do Bolinha em direção ao Camapuan, os relâmpagos e trovodas nos acompanharam  a trilha e subida da  rampa embora sem chuva, a visão dos relâmpagos enquanto subiamos na noite ainda a laje dessa montanha impressionava e dava um certo clima de tensão, ainda mais pra mim que passei uma noite pavorosa de raios no cume dessa mesma montanha em 2011. Mas ninguém dizia nada, nem questionava, a determinação era dominante no grupo e todos seguiram até o Tucum com mínimo de paradas a não ser para reabastecimento de água. Já amanhecia no cume do Tucum e seguimos pro Cerro verde , já era claro quando passavamos pelo vale entre o Tucum e Cerro e na subida o calor já aumentava e a sede também mas tocamos até o cume onde chegamos cerca de 8 hs , batemos as primeiras fotos, admiramos toda a maravilha daquele lugar que é quase um santuário .

 Tocamos em frente pra transição à direita que vai pro Itapiroca e começamos a descer o vale . Em um certo ponto o  feliz e inusitado encontro com o Elcio, Mildo, Jurandir e Fred que iam em direção a Graciosa, eles estavam realizando a inédita PP-Graciosa de ataque, uma loucura como tantas idealizadas pelo Elcio . Deu-se o encontro de duas travessias punks em sentido contrário nós  na 7C e Elcio e Cia na  PPGRA, dois grupos extremamente determinados e focados em cumprir seus objetivos mas que não se incomodaram de perder minutinhos preciosos desejando boa sorte e tirando a foto de registro.

 E tocamos em direção ao cume do Itapiroca, ô subidinha puxada e enroscada, que não termina nunca, mas enfim às 11:30 chegamos ao cume, esses horários são uma média.
No Itapiroca o tempo fechou, muita chuva e vento gelado começou a castigar a galera, alguns começaram a mudar o semblante mas nada de desânimo e falamos pra  nem pensar muito e continuar em frente, descemos o Itapiroca e pegamos  a direção do cruzo do Caratuva ,  na descida me deparei com um galego de chapéu de cowboy que logo reconheci como sendo o Marcio Olesko  que eu só conhecia do face assim como seus  dois amigos , foi reconhecimento mútuo , aperto de mão e boa sorte e tocamos pro cruzo do Caratuva.  A chuva  havia desmotivado o Alvaro e Jonathan que no cruzo do Caratuva resolveram desistir de seguir adiante e se despediram de nós alegando que para eles a travessia das fazendas já estava de bom tamanho e ainda nos emprestaram um saco de dormir e isolante pra reforçar o acampamento de logo mais a noite , já que a chuva e vento ameaçavam uma virada no tempo. O pessoal da Equipe estava bem  inteiro e fechado em cumprir a travessia e assim sem nem pestanejar apesar do cansaço e roupas enxarcadas (como no meu caso e do Dunga os mais precários de roupa de frio)  seguimos em frente aquecendo o corpo com a pernada em ritmo intenso. Talvez pelo cansaço extremo a subida do Caratuva parecia não terminar mais, ô subidinha que castiga com sua encosta íngreme e trechos de escalaminhadas verticais que não acabam, mas tudo acaba e essa subida também rsrs nesse ponto eu estava com cansaço extremo e muita fome, as bolachinhas, salames, sucos e gel repositores de energia simplemente eram sugados pelo corpo em minutos e o cansaço tomava conta. Cheguei no cume num estado  de fadiga intensa  , sentindo o corpo amortecido , câimbras e a pressão baixando pelo calor da subida intensa . Parei antes das antenas junto com a Vivi  pra respirar um pouco , tiramos fotos e seguimos até as antenas,  sem pensar muito resolvemos tocar pro ultimo objetivo do dia: Taipabuçu.



Desce piramba, e das boas pra pegar a trilha pro Taipa, essa decidinha é sempre  perigosa, mas com o cansaço ficou ainda pior pros meus joelhos, escorreguei um par de vezes naquelas folhas e barro que deslizam mais que pista de patinação e assim entre tombos e derrapadas fomos descendo a crista até a pedra da faca .
Se a  descida é tensa  a subida é cansativa ,  trechos bem fechados, túneis de taquara que fazem rastejar o corpo cansado e assim tudo foi ficando mais pesado, estávamos eu a Vivi e já não ouvíamos o Chico,  Dunga e Evaldo que deviam estar bem adiantados, duvidas de onde eles estariam e se estava tudo ok começaram assombrar os pensamentos,  teriam ido até o cume? Gritamos por eles em alguma clareiras mas a resposta não vinha e nem enxergávamos sinal deles, não havia motivo de preucupação maior, mas o desejo de nos juntarmos e o fato deles carregarem panela pra fazer uma comidinha quente coisa que lembrei que nenhum de nós três levava nos desanimava caso não encontrássemos eles até o local de parada , que era o cume do Taipá. Já perto do cume lembrei que a louca da Vivi havia levado uma lata de milho(!!) e que em últimos casos poderíamos cozinhar o miojinho ali, mas não foi necessário, nossos guerreiros da dianteira estavam ali no cume já com barracas montadas  e instalados. 

Ficamos os 6 distribuidos em 2 barracas, o Evaldo o mais radical  da Equipe,  bivacou do lado de fora mas debaixo de uma lona e assim cerca de 5 min depois de chegarmos no cume o céu desabou numa chuva pesada , grossa e com rajadas de vento. Ficamos quietos abandonados ao cansaço pra só cerca de 1 hora depois cozinhar o miojinho com lingüiça calabresa e queijo ralado acompanhado de suco de uva, depois disso foi um desmaio só até o próximo dia.
Dia seguinte nasceu bonito, segundo o Evaldo que acordou antes dos outros, mas derrepente fechou completamente e antes de desmontarmos acampamento já estava um vento e chuva e tudo cinza ou branco, eita porraaaa...rsrsrs simbora descer o Taipa e tocar pro Ferraria que ainda tinha coisa. E como diz o Dunga: “Se larguemo” (sotaque gaudério)  pro Ferraria!

Descida , vale,  e já na transição mais exercício de rastejar por tuneis de taquara, quiçassa boa essa, que mesmo cortada pelos que passam nasce mais forte e fecha de novo, desta vez não encontrei nenhuma amiga jararaca, mas olhava meio desconfiada pois sei que ali é lotado dessas minhas parentes reptilianas....vai que elas me estranham !
A subida do Ferraria é bonita e
bem demarcada até o cume praticamente, só complica um pouco em um crux de pedras que tem que subir já na finaleira antes do cume, mas um pouco de cuidado e o uso de uma corda (meia boca) ajuda a transpassar esse obstáculo. Finalmente na corcova mais nervosa do dragão. O Ferraria é piramidal e muito bonito, é sempre emocionante pisar ali, pois é remoto, pouco acessado e realmente  exclusivo e charmoso... além de claro a visão diferente do PP, Taipa , Ferreiro etc... Estava visual aberto ,  total e vista limpa  da descida da face leste que iríamos fazer a seguir. Eram 11 hs  e após nos refazermos da emoção de pisar no sétimo e almejado cume da travessia, tirando algumas fotos e simplesmente contemplando todo o visual, fizemos um almoço /lanche reforçado  no cume pra iniciar a descida da longa crista já perto das 13 hs.Já tinha de descido a face leste outras vezes , mas sempre final de tarde já escurecendo o que além de tornar a descida meio tensa , me impedia de realmente aproveitar visualmente toda a complexidade e diversidade dessa trilha sensacional...resolvi aproveitar e deixar a câmera a mão pra registrar, e assim após algumas recomendações gerais iniciamos a descida.
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A primeira parte dessa decida é realmente meio tensa pois depois de 30 minutos de muita piramba se chega numa testa de pedra ou um degrau onde estão afixadas algumas cordas de auxilio mas que mesmo assim exige bastante atenção e cuidado pois ao rapelar por elas é difícil enxergar onde apoiar os pés ao descer, fora que com o peso da cargueira sendo essa parte vertical mesmo qualquer descuido a queda pode ou até fazer rolar crista abaixo, ali não se pode errar e o cuidado deve ser redobrado.  Embora eu tenha avisado sobre essa pedra fiquei sabendo que todos meio que foram surpreendidos pela dificuldade , sendo que o Dunga chegou a cair e ficar dependurado pela velocidade que vinha na descida sem conseguir frear a tempo , a Vivi escorregou a mão da corda acabando por cair sentada no fim dela (KKK) e assim cada um teve um probleminha ..no meu caso como sempre quase desmunhequei pois prendi a mão num dos nós e depois não conseguia soltar pelo peso do corpo e cargueira ...mas enfim, passamos todos sem nada de maior importância...



A continuação da descida são duas corcovas ou montes pequenos , lugares fantásticos onde vc se sente quase pilotando a corcova dessa montanha, a visão de cima dessas corcovas onde o  paredão e abismo estão tão próximos de vc  nesse lugar tão remoto s trás um sentimento de unidade entre vc e a montanha e a impressão  de fazer parte daquela grandiosidade toda, só indo pra entender, fotografei mas não chega a passar o que realmente é!






O resto da descida é longa , sempre alinhando em algumas parte e logo adiante mais pirambas , há muitas sequencias assim até que após horas de descida se chega ao vale próximo à estrada da conceição, a trilha esta relativamente aberta e demarcada com fitas suficientes pra que qualquer montanhista experiente possa descer sem risco algum, nas partes confusas é usar dessa experiência pra achar a continuação da trilha, nada complicado, o que mais faz diferença é descer de dia ou de noite,  as vezes que desci de noite foi bem tenso , já esta com luz do dia foi extremamente tranquila.
Chegamos na estrada da conceição entre 17 e 18 hs,  a estrada estava melhor que da ultima vez, com mato mas não da altura de uma pessoa e logo alcançamos a ponte Indiana Jones onde  não deixei de tomar meu banho de rio sagrado, que me tirou todas as dores musculares e me renovou pra longa caminhada que tinha pela frente até a fazenda.



Já no fim o Gera veio ao nosso encontro  para o resgate da equipe na fazenda onde todos sentimos o alivio da missão realmente cumprida, o ano de 2013 estava realmente fechado com chave de ouro.  A 7C mais uma vez havia sido concluída com êxito e nos recompensado com toda a aventura, adrenalina e desafio que o povo das montanhas  tanto busca.  Que venha 2014!







Distancia total da travessia : 32 Km

7 Cumes : Camapuan  - 1720 mts
                 Tucum - 1.740 mts
                 Cerro Verde - 1.680 mts
                 Itapiroca - 1.805 mts
                 Caratuva - 1.860 mts
                 Taipabuçu - 1.748 mts
                 Ferraria - 1.760  mts

Na estrada da Conceição da Ponte Indiana Jones até a fazenda - 7 Km





              

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Travessia Teresópolis- Petrópolis - E.Tiamat na Serra dos Órgãos


Desde que formamos um grupo fixo de apaixonados por montanha , a  E.T. (Equipe Tiamat), começamos a organizar melhor nosso cronograma de montanha. Antes a coisa funcionava no tranco , meio de improviso e na louca mesmo , começava com uma conversa no grupo do face, o  "Explorando Tiamat" e o perrengue tava montado. Com o tempo sentimos necessidade de nos programarmos melhor pra otimizar tempo, dinheiro e conhecer mais montanhas  , ir mais longe e além..Assim surgiu a Equipe Tiamat, apelidada simplesmente de "equipe ". Inicialmente eu ,  Terezinha e aos poucos foram entrando outros trekkeiros interessados na nossa proposta de explorar montanhas e fazer travessias. O limite de 12 pessoas pra ir com conforto e espaço pras cargueiras faz com que haja um rodízio dos integrantes nas programações, tem alguns que até agora foram em todos e tem dado muito certo. Após fazermos algumas das clássicas (Itapiroca, Tucum, Camapuãn e Araçatuba ) com o pessoal novo que foi se agregando à equipe, resolvemos testar o espirito de guerreiro de todos e fazer a travessia da Serra dos Órgãos.

A travessia tem 35 km e pode ser feita no sentido clássico Petrópolis- Teresópolis ou ao contrário, como nós resolvemos fazer : Terê - Petrô.

Abrimos um grupo no face para combinarmos os detalhes dessa investida , afinal teriamos que viajar de Floripa a Teresópolis no RJ  que fica a 1.189 km , portanto tinhamos que calcular tempo de ida e volta mais os 3 dias de travessia para faze-la de forma tranquila e aproveitar ao máximo.

Contamos com a ajuda de todos, o  Mario se destacou na logística da VAN , passou 2 semanas ajudando na manutenção da mesma, providenciando a troca do som que era só CD pra un  que tocasse mp3 e foi o responsável por pegar todos no dia da nossa saída de Floripa , uma quinta a noite 25-07-2013. 

Minha parte foi organizar,  confirmar  as inscrições no parque, reservar camping, fazer check list de equipamentos e vestuários necessários, tudo ia sendo colocado no grupo aberto no face especialmente para isso. 

Ficou com alguém a parte de baixar os track logs no GPS e equipamento de escalada necessário para dar segurança ao pessoal nos trechos críticos da trilha. O Jean Michel ficou com a parte de estudar a travessia em todos os detalhes já que ele é bem acostumado a guiar . Desta forma fomos nos cercando de todos detalhes possíveis sobre a travessia, lendo relatos, estudando mapas pra que tudo corresse tranquilo.

Fomos em 11 da Equipe : Eu, S., Terezinha Tessaro, Chico Tessaro, Djalmo, Pedro Filho, Mercia Brito, Maria Tereza, Juliana, Jean Michel e Mario Firmino.

Combinamos todos de fazer um lanche comunitário  na van pra poupar tempo e dinheiro em paradas já que o tempo de estrada era apertado pra cumprirmos o cronograma. Cada um ficou encarregado de 2 ítens e deu muito certo, comida é que não faltou durante a viagem, além da diversão e espirito de união ser reforçada com o lanchão de beira de estrada. Tinha de tudo , de cachorro quente a bolos , bolachinhas, café e coca cola..foi dez!


Conseguimos sair de Floripa às 20 hs , o Mario passou a tarde buscando cada um dos integrantes em seus respectivos bairros ou ponto de encontro e assim , após 16 hs de viagem , chegamos a Teresópolis após passar pela temida Linha Vermelha e outros pontos do RJ  que aliás, continua lindo , sempre!

Subindo a Serra e já vislumbrando um espetáculo de montanhas à nossa frente chegamos na portaria de Teresópolis  às 14 hs, onde nos identificamos, apresentamos os ingressos e entreguei o Termo de Responsabilidade assinado por mim , que garantia que conhecia os riscos e me responsabilizava pela segurança do grupo, eu estava bem tranquila pois o grupo era bom e já tinha demonstrado isso em programações anteriores.

Seguimos da portaria até a barragem, onde deixamos as cargueiras e o pessoal, enquanto todos se ajeitavam e faziam ultimos ajustes no equipamento, Mario foi  levar a van até a pousada, local de estacionamento, enviamos mensagem para um motorista que faria nosso resgate ao final da travessia em Petrópolis e nos traria de volta para a van em Teresópolis e assim após conseguirmos o milagre de colocar tudo nas pesadas cargueiras (comida pra 3 dias, barraca e roupa de frio extra) pegamos o inicio da trilha com aquele característico friozinho na barriga da emoção que começa ao iniciar travessia desconhecida.

O tempo havia sido monitorado por 2 semanas e fomos brindados com final de semana maravilhoso, frio e limpo, exceto a sexta 26-07  que havia possibilidade de chuva, mas que nada , saimos com tempo seco, a sorte estava do nosso lado até nisso. 



Ao contrário da travessia clássica que incia com a subida do Açu, iniciamos a nossa por Teresópolis portanto iniciando a subida às 14:30   pela trilha rumo à Pedra do Sino. A subida é suave porém um zigue zague interminável e com as cargueiras pesadas foi bem cansativa , a previsão era de 6 hs de subida até o Abrigo Quatro que fica próximo ao topo do Sino . Subimos todos num ritmo parecido,  com o Jean  à frente  e eu  fechando a trilha. A trilha do Sino é muito demarcada e sem possibilidade de erro, assim cerca de 20 hs os que estavam à frente chegaram ao Abrigo Quatro , estava bem frio e o ultimo trecho foi feito com muito nevoeiro o que nos fez duvidar se não tinhamos passado do Abrigo, após conferência no GPS verificamos que ainda faltava um pedaço , e avistamos o Jean e Chico  Tessaro voltando pra nos avisar que já estavam todos se instalando no local de acampamento.


No Abrigo Quatro a hospitalidade foi um show  a parte, o Charles e outros responsáveis pelo abrigo nos acolheram muito atenciosamente. Enquanto todos montavam suas barracas , o Sergio que já apresentava sinais de uma virose, pagou diferença pra dormir dentro do abrigo de bivaque e tbém  uma taxa de R$ 40,00 para que todos pudessemos utilizar a cozinha e jantarmos juntos no abrigo pois lá fora estava bem frio, cerca de -3 graus e estavamos bastante cansados.A Maria Tereza utilizou o banho do abrigo, taxa de R$ 10,00. 

A janta foi macarrão com molho de atum e creme de leite, além de outro molho vermelho e sobremesa um delicioso brigadeiro de panela da Terezinha, onde todos colaboraram , também rolou café e chocolate quente, enfim, perto das 22 hs todos fomos dormir e nos preparar pro segundo dia da travessia.

No dia seguinte todos tomamos café no abrigo e enquanto alguns levantavam acampamento, outros rumaram para a Pedra do Baleia, quase no topo do Sino de onde tiramos fotos magníficas com mar de núvens e os picos de montanhas mais abaixo aparecendo. O Djalmo cumpriu a promessa e levou duas lindas bandeiras , uma do Brasil e outra da Argentina o que rendeu lindas fotos naquele lugar .


Após muitos agradecimentos , inclusive no livro do abrigo, nos despedimos do pessoal do Abrigo Quatro e 9:40 iniciamos a trilha do Sino ao Açu, eu já havia lido nos relatos que esse trecho é mais complicado, pois tem partes íngremes emparedões além de não ser tão demarcada apresentando inúmeras trilhas em várias direções, mas o Jean havia conversado bastante com os montanhistas que estava no abrigo e munidos de mapas e GPS nada nos preucupou, tomamos a trilha que vai em direção ao Sino , que vai contornando o paredão à direita  pela encosta rochosa, chegamos ao temido cavalinho! Não achamos tão assustador apenas um pouco complicado por ser beirando um abismo gera um pouco de tensão, o Jean desceu sem nada, eu , a Mercia e Djalmo descemos na sequência com ajuda de uma corda e pros demais foi providenciado  uma cadeirinha o que os fez descer sem problema nem risco algum, as cargueiras foram puxadas previamente pelo Mario que subiu e desceu várias vezes o cavalinho.

Dali pra frente é só descer e estamos na base da Pedra do Sino, um local chamado de Vale dos 7 Ecos, após tem um morrinho de onde se pode avistar o Garrafão mesmo parcialmente encoberto pela neblina a visão foi espetacular, a trilha agora desce e vai dar num local chamado Vale das Antas, onde há várias bifurcações e após este trecho se sobe para o morro à frente chamado de Cabeça de Dinossauro bastante enlameado , seguimos em frente e após mais um vale subimos o Morro da Luva , sempre com visões maravilhosas pra todos os lados , o segundo dia de travessia é incrível se sobe e desce vários morros e vales e pra mim é a melhor parte já que particularmente adoro andar em crista, com visual sempre alto e aberto, e assim após chegarmos a enormes lajes de pedra com vários marcos sinalizando o caminho tomamos a direita em direção ao Morro do Marco, mas antes tivemos que descer uma encosta bem íngreme com uma imensa escadaria de grampos apelidada de elevador, todos desceram sem menor problema, porém grupos que faziam no sentido contrário ao nosso tinham que subir, o que torna esse trecho bem cansativo. O Mario fez o que mais gosta, ajudar no perrengue, alguns montanhistas travaram na subida pelo cansaço e pelo medo , ele se ofereceu para levar a cargueira deles , desta forma subiu e desceu o "elevador" umas duas vezes...rsrsrs. Após esse trecho tem um outro mais a frente que não é tão difícil mas exige cuidado que é uma laje bem íngreme onde , no nosso caso, teriamos que subir, qualquer errada ali é pode gerar uma queda bem feia , é o chamado corrimão, mesmo assim a maioria subiu sem problemas, uma turma que descia esticou uma corda que ajudou a mim no finalzinho e à Maria Tereza tbém. 




O grupo no geral tinha o mesmo ritmo, com Jean à frente e alguns adiantados mas que ao parar para descanso e lanche eram  alcançados pelos que vinham atrás , desta forma todos andamos meio que juntos, separados ocasinalmente pelo ritmo mais forte de alguns mas logo a frente novamente todos juntos novamente. Destaque para o Djalmo que embora tenha um dos ritmos mais fortes do grupo sempre preucupado com os que vinham atrás, muitas vezes atrasava o ritmo para esperar os ultimos da fila.


A Terezinha foi a fotógrafa oficial, munida de duas câmeras não perdia um lance e com muito boa vontade registrou momentos do grupo todo. O Pedro Filho outro de excelente performance na trilha também vinha registrando amigavelmente a todos do grupo. 

Destaque para Mércia Brito no quesito boa vontade e simpatia, sempre bem disposta , não reclama de nada e embora venha de região quente, Natal, achau tudo lindo , inclusive o frio da montanha a mais de 2.000 mts de altitude.

Maria Tereza, outra guerreira, vinha em cólicas , por estar naqueles dias, porém só saia agradecimento e felicidade da boca dela, feliz de estar tendo a oportunidade de participar da travessia mais linda do Brasil . 

Ainda tivemos um belo almoço na cachoeira no meio da trilha, numa encosta íngreme mas que nos brindou com água fresca e limpa pra fazermos almoço e nos refrescarmos, conferimos o mapa e vimos que estavamos na metade do trajeto pra esse dia e assim resolvemos apressar o passo.  

Do próximo ponto alto, o Morro do Marco já viamos os castelos do Açu  e nesse momento um denso nevoeiro fechou nossa visão, foi uma pena , pois é dali que se tem a visão clássica da Serra dos Orgãos, o Dedo de Deus, Escalavrado e Cabeça de Peixe. Mesmo assim conseguimos algumas fotos uafaa




Ainda tinhamos mais uma descida pra depois subir o Açu para o abrigo,  e na metade da descida após o espetáculo registrado por todos do crepúsculo na Serra dos Órgãos explodindo em tons de vermelho e rosa com os raios do sol nos acenando, caiu a noite...

Com o fim da descida e a vinda da escuridão, todos ligamos as lanternas e iniciamos a subida para o Açu, já mal visualizando a trilha pois o nevoeiro era tão denso que só se via ...o nevoeiro! Subimos um a um e o na metade da laje da subida sentou dizendo que a cabeça parecia que ia explodir , e assim na escuridão, todos do grupo pararam e sentaram um pouco acima  pra esperar o guerreiro se recuperar , o frio era cortante e todos sentaram próximos para se aquecer, não sabiamos bem a quanto estavamos do abrigo e nem sinal de trilha pelo denso nevoeiro.  Derrepente à esquerda  avistamos luzes que  achamos ser o abrigo, pois sabiamos estar perto, euforia geral de receber sinais no meio daquele nevoeiro grosso , frio e escuridão, fomos em direção às luzes e constatamos ser de 2 montanhistas que acampavam próximo ao Abrigo que já estava perto. Mais 200 mts e chegamos ao abrigo. 

Infelizmente o responsável pelo abrigo, Sr Hamilton, não demonstrou a mesma amabilidade e hospitalidade do outro abrigo, ele parecia mais preocupado com o papo com outros montanhistas já dentro do abrigo  que interrompemos ao chegar.  Perguntou se conheciamos o local, pois não poderiamos montar barracas ali e sim atrás do castelo de pedras do Açu, respondemos que não conheciamos, ao que ele disse que era "fácil" , "só contornar o castelo", parecia incomodado com nossa presença e disse que se quisessemos usar cozinha ou água somente até as 21 hs e entrou no abrigo apressadamente nos deixando a todos meio sem sabe para onde seguir. O nevoeiro era muito denso e não se via nada, tentamos achar a área de acampamento mas se tornava cada vez mais difícil, felízimente um montanhista, o Felipe Barros nos encontrou e fez questão de nos levar até o camping, não fosse ele andariamos naquele nevoeiro sem enxergar nada por mais tempo ainda.  Nossos agradecimentos ao amigo Felipe que demonstrou o verdadeiro espirito da montanha, ajudar uns aos outros, afinal todos um dia podemos precisar e no outro podemos ajudar.

Montamos nossas barracas sob um frio intenso e vento também, não muito forte mas o suficiente para atravessar de forma cortante as nossas roupas em qualquer frestinha que houvesse congelando a alma...

A maioria se apressou em montar barracas, lado a lado, e fazendo sua janta individualmente pela questão do frio. O Jean muito prestativo buscou água para todos na minha mochila e enfrentou a descida até o abrigo voltando carregado de cantis e garrafas de água, naquela escuridão e nevoeiro foi um ato bem corajoso. Em agradecimento a Terezinha convidou um delicioso macarrão e chocolate quente pra Jean e o Mario aproveitou a ocasião  indo jantar lá tbém.

Passei bem à noite , meu saco de dormir do Trilhas e Rumos -17 extremo, tolerancia -7 e zero conforto, se portou bem. Após fazer uma jantinha quente , macarrão com calabreza e queijo ralado e café com leite pra esquentar  adormecemos placidamente, mesmo com os gritos de um grupo de crentes escandalosos que gritavam como se estivessem numa rave enlouquecidos...nunca tinha ouvido louvor a Deus misturado com palavrões e algazarras, mas deve ser uma nova modalidade....



De manhã fui a primeira a acordar e avistar o mar de nuvens perfeito a frente da nossa barraca, a visão dos castelos do Açu erguido acima das núvens majestosamente com os primeiros raios de sol foi de dar nó na garganta, mesmo com pena de interromper o soninho dos companheiros não resisti em chamá-los para o espetáculo. Como sempre Djalmo e Pedro Filho os primeiros a me fazer companhia, em seguida foram surgindo de suas barracas as carinhas amassadas pelo sono: Mario, Jean, Mercia, Maria Tereza, Chico e Terezinha..Foi um amanhecer maravilhoso, pra registrar na nossa memória e máquinas digitais para sempre! Fomos até o castelo do Açu e encontramos amigos lá que haviam amanhecido no castelo para ver o nascer do sol, magnífico, espetacular, emocionante, faltam adjetivos, os raios de sol banhavam a todos como que abençoando a presença de cada um ali , em qualquer direção que se olhasse a imponência da natureza se mostrava grandiosa em todo seu esplendor e beleza!




Enfim, estasiados e felizes, tomamos nosso café matinal, e começamos a desarmar acampamento , o Mario tinha uma difícil mas honrada missão, descer o morro do Açu correndo pra chegar na frente de todos, pegar o taxi e buscar a van em Teresópolis, desta forma economizaria metade do dinheiro nessa operação indo resgatar a van ao invés de irmos todos e pagarmos 2 veículos grandes. Diga-se de passagem o Mario é especialista em cumprir missão, fez o prometido e quando chegamos lá embaixo na sede de Petrópolis ele já vinha chegando com a van.  Mas ele não teria conseguido sem a colaboração do Chico Tessaro e do Jean que para que ele pudesse ir mais leve dividiram o peso da barraca em suas mochilas. Trabalho em Equipe é isso!

A descida do Açu é íngreme, mas muito demarcada, sem mistério , há pontos de água pela trilha e lugares lindos pra descanso e tirar fotos como a Pedra do Queijo e o Ajax, já no final há um rio maravilhoso onde se pode tomar banho e beber água como foi meu caso que não resisti e mergulhei a cabeça e me molhei toda com aquela água maravilhosa, gelada e abençoada!

 , Jean, Djalmo e Pedro  chegaram na frente indo almoçar num restaurante de comida caseira ótimo a 300 mts da portaria do parque, os restantes chegamos 10 minutos depois e fomos atrás do rango também! Chegando lá eu e Maria Tereza combinamos de tomar aquela gelada, mas uma pra cada não foi suficiente, tomamos duas cada uma,êeeeeeee só alegria. A travessia foi um sucesso em todos aspectos e provou que realmente somos uma equipe, cada um deu melhor de si e estava feliz de poder estar ali. Logo que o Mario organizou o embarque de todos e suas respectivas cargueiras ,  foi almoçar com a gente também.

A volta foi tranquila e chegamos em Florianópolis sem muitas paradas na segunda feira 29-07 às 08 da manhã , cansados mas felizes e já mirando nosso próximo objetivo nos dias 10 e 11 de agosto: PP no amado Ibitiraquire -PR.





























quinta-feira, 25 de abril de 2013

A Torre da Prata



Quem sugeriu esta trilha foi o Jurandir Constantino, vulgo Jura ou Juramidam como gosto de chamar este ícone do montanhismo e que se tornou um amigão , parceirão e guia  de trilhas épicas duas as quais tive a honra e sorte de participar, a ultima delas a 7C no Ibitiraquire.
No decorrer de 15 dias foram-se juntando outros guerreiros e guerreiras também interessados nesse desafio que, segundo informações que fui colhendo era meio “perrengoso”.... Sempre que tenho curiosidade de saber de uma trilha ou montanha recorro ao site do AltaMontanha e me divirto ao ler relatos e causos da montanha da vez. Li um do Jorge Soto , e já fui sentindo que a caminhada ia ser árdua...
Eu  , como sempre temos que fazer uma série de acertos no trabalho, nossa agência no aeroporto, na família deixando as crianças em segurança e tranquilas toda vez que vamos pra serra paranaense, e isso demanda peripécias na logística e bastante sacrifício como sair no sábado às 4 da manhã de Floripa pra  enfrentar 4 horas de estrada após ficar até a meia noite de sexta feira arrumando as cargueiras....
Já na estrada a caminho do Paraná fui curtindo animadamente curtindo  leitura da épica Alpha Crucis , um doc que  o Elcio nos passou gentilmente pra lermos antes da publicação oficial.
Perto das 8 hs avisamos via telefone ao pessoal (que já estava no inicio da trilha) que nos aproximávamos de Guaratuba e ainda tínhamos a balsa para atravessar. Acertadamente eles decidiram iniciar a trilha cedo pois o Elcio Douglas, Miguel e Debora fariam de bate e volta e era prudente começar logo.  Juntamente com eles iniciaram às 8:30 o Frederico , Juliana Hoy e Cintia Eliane , ficando o Jurandir a nos esperar perto da BR 277.
Perdemos muito tempo na balsa, cerca de 1 hora, e somente as 10:20  pegamos o Jura pra depois pegarmos uma estradinha que atravessa vários riachos  indo em direção ao Sitio , onde um senhor nos cedeu lugar para estacionar em troca de uma colaboração espontânea. Ajeita daqui e ajeita dali,  nos despedimos do sinhozinho do sítio que já avisa que longe ele vê uma núvem e que no dia anterior estava mais limpo...assim às 11 horas iniciamos atravessando o riacho  saltitando em pedras , tarefa simples e à toa pra todo mundo mas que pra mim é um inferno pelo pouco ou nenhum equilíbrio que tenho , mas embora reclamando e meio desequilibrada sempre atravesso esses rios com alguma ajuda  e muita paciência lógico. A trilha inicia tranquila e pra minha surpresa adentra um bosque lindo, aberto com  suaves subidas ,  na verdade é uma curtição esse início, ainda mais com  a prosa agradável em que íamos .... após uma hora de caminhada chegamos no primeiro ponto de água, um agradável riacho de água deliciosa onde paramos pra primeira fotinha. 

Encontramos alguns caçadores que também param pra se refrescar e  tomar água , e após uns  10 minutos trocando informações sobre a trilha mais adiante, seguimos pois tem muita coisa pela frente. A trilha continua bonita e bem aberta , conversando e tentando seguir o Jura que pacientemente nos espera cada vez que se distancia chegamos a um deslizamento á direita, enorme  e assustador  imaginar tanta terra descendo assim. A partir dali a subida vai apertando e ficando mais inclinada, passamos pelo tal rancho dos macacos que na verdade é um tronco caído e uma pequena clareira onde encontramos a jararaca morta sobre a qual os caçadores nos avisaram que estaria por ali... antes dessa tínhamos encontrado uma outra jararaca, essa bem viva mas pequena ainda , que apenas deixamos passar pela trilha...susse!
Subida ficando ma  e nem penso em reclamar por saber que ainda estamos longe, talvez nem na metade...derrepente o Jura escuta algumas vozes , eu paro de respirar inclusive pra tentar ouvir mas nada, essas vozes são perceptíveis apenas pro Jurandir...uns 20 minutos adiante aparecem os donos das vozes : Elcio Douglas, Miguel e Debora os quais já estavam voltando pois tinham ido de ataque mais cedo... a alegria foi geral né, paramos todos , cada um arruma um canto pra sentar e após algumas informações de como está o cume o Elcio começa a contar os causos dele do trem da morte na Bolivia o que arranca gargalhadas gerais, pois além de um puta montanhista o Elcio é uma baita tirador de sarro dos próprios perrengues e sabe como ninguém contar essas situações hilárias fazendo a todos esquecer que tínhamos que prosseguir, quase uma hora depois de muita festa e algumas fotos no meio do mato, cada turma seguiu seu rumo, nós pra cima e eles morro abaixo onde iam tomar sorvete em Morretes... pela lama que eles traziam nas botas vi que a trilha não seria tão seca assim lá pra cima...


Exatamente desse ponto pra cima a trilha muda drasticamente, o Jura simplesmente dispara vendo que dali pra frente mesmo sem conhecer não tinha erro e agora eram escalaminhadas fortes por rochas cheias de limo mas com algumas boas raízes pra se agarrar ..... e tome piramba acima, uma atrás da outra, embora esses trechos exijam mais, eu sempre prefiro pois a ascenção é rápida, mas nem tão rápida assim , na verdade quando parecia não ter mais  fim e  depois de umas 2 horas tocando pra cima  saímos no aberto onde fica bem agradável pois se percorre uma crista e vc já pode ter a primeira visão daonde quer e vai chegar, mas que ainda está bem longinho..rsrsrs

Percorrendo essa crista  curtimos bastante o visual , tiramos fotos e começamos a passar por todo pessoal do CPM que fazia de ataque essa trilha e voltavam suados, ofegantes e enlameados, cumprimento daqui e dali, alguns nos avisam que lugar pra acampar não tem mais pois um certo indivíduo havia montado uma “tenda de circo” tão grande que alguns que tinha ido pra acampar haviam desistido pela falta de espaço, rsrsrsr, presumimos que o indivíduo era o Fred que não importa a montanha sempre leva uma casa na cargueira ....

A Crista realmente apresentava trechos de muita lama e era impossível evitar alguns escorregões, após um sobe e desce chegamos no ultimo ponto de água que segundo Elcio ficava a 20 minutos do cume, ali  enchemos as garrafas, fazemos um gostoso suco com quela água fresquinha e embora cansados nos animamos , afinal aquela trilha sem fim parecia chegar ao seu final. . Após esse ponto de água avistamos o que seria o cume, na verdade 2 pedras onde se podia distinguir numa delas a figura comprida do Jura rsrsrs, num certo ponto a trilha se bifurca ....mais um desce e sobe enlameado pra depois investir na subida final , sobe , sobe e  a visão é absurdamente fantástica nesse ante-cume, mares de nuvens, raios de sol refletindo no horizonte , fazem a gente parar pra tirar algumas fotos e filmar essa subidinha final, e após circundar uma gigantesca rocha finalmente as 18 :30 chegamos no mocó do acampamento onde fica a pedra do cume, e onde também pudemos verificar uma pequena barraca ao lado de uma gigantesca , a tenda de circo do Fred ! Ainda achamos um espaço ao lado de uma greta enorme pra montar a barraca.

Escutamos a conversa animada da Juliana Hoy, Cintia, Fred e Jura no cume acima na pedra mas estávamos tão cansados e com fome que montamos a barraca pois já estava escuro e nós mortos de cansaço e fome. Deixamos pra subir a pedra depois do rango , mais tarde quando fosse a chuva de meteoros marcada pra essa madrugada....
Não estava tão frio, portanto resolvemos cozinhar do lado de fora, macarrão parafuso , calabresa e queijo ralado com suco claro.
Foi uma alegria conhecer as meninas valentes , já bem conhecidas pela galera montanhista do Paraná, a Juliana Hoy e Cintia Eliane, já havíamos cruzado com elas e o Junior no Ciririca , mas desta vez estávamos na mesma montanha, acampando e dividindo a experiência, foi especial!
Após a janta cada um se enfiou em sua barraca e Jura bivacou no cume, ô bicho corajoso, nem se enrolou na lona amarela, simplesmente no saco de dormir, o legítimo rocambole de onça azul!
Fomos deitar e descansar um pouco pra cerca de uma da manhã acordarmos, e sairmos da barraca com cuidado pra não cair na greta decidimos que já dava pra ir dar uma espiada no céu , lá na pedra, subimos e nos ajeitamos meio desanimados pelo céu estar encoberto, porém em alguns minutos a nuvem se dissipou e pudemos ver a lua , as estrelas, um belo firmamento e as luzes de Paranaguá beirando o mar....foi lindo! Porém não demorou muito aquela visão sumiu e estávamos novamente dentro de uma núvem. Decidimos dormir , descansar pois a volta nos aguardava no dia seguinte.

O dia amanheceu branco, fechado, uma núvem só...mesmo assim após um café quentinho e alguma prosa com os vizinhos das barracas ao lado subimos todos pro cume na esperança de alguma abertura pra bater fotos...




Foram poucas as chances, mas em qualquer aberturinha era aquela gritaria e corre pra cá e lá pra sair uma foto com alguma visão kkkkkkk não sei como numa dessas quase não nos atiramos nos precipícios...mas foi muito bom!

Descemos , assinamos caderno, acampamento desmontado e cargueira nas costas , botamos pé  na trilha não sei bem que horas....a turminha mais rápida foi na frente e eu  no nosso ritmo,sem muita pressa já que descida pra mim até o músculo aquecer é sofrido...ainda nos encontramos na bica perto do cume onde todos aproveitamos pra lanchar, um lanche comunitário , conversar e onde também passaram por nós em direção ao cume 2 rapazes que faziam de ataque. Pelo fato da primeira parte ser pirambenta  e eu descer devagar  , com todo cuidado,  quando cheguei na parte de descida em terreno mais firme aí sim dei aquela acelerada ...já la embaixo, tem uma  errada (trilha)logo vi por onde por onde seguia a trilha correta, mas comecei a escutar vozes e avistei  dois rapazes que mais cedo estavam chegando no cume , eles haviam encontrado o cume fechado e voltado rapidamente porém em algum ponto, talvez pela rapidez,  saíram da trilha, por sorte escutaram nossas vozes e e  mostrei pra eles a continuação ao que respiraram aliviados, vendo que não estavam perdidos afinal... e assim daquele ponto mais 20 minutos saímos no riacho início da trilha, onde com muito gosto tirei minhas botinas e enfiei os pés naquela agua geladinha .....ahhhhhh muito bom!

Os finalmentes:
A trilha é linda, aberta, bem demarcada embora com algumas bifurcações.
É pesada pra ser feita de cargueira porém pra ser feita de ataque é muito extensa, há que se pensar qual melhor alternativa, no meu caso prefiro sofrer com a cargueira mas chegar sem pressa de voltar, pois é muito esforço pra ficar 5 minutos no cume e voltar..minha opinião!
Vale a pena pois a montanha é linda, tem seus perigos, não se pode chamar de trilha fácil, na verdade é difícil pela exaustão , alguns trechos confusos ,    encontramos 2 jararacas no caminho, mosquitos assassinos e uma pata de onça foi fotografada  por uma pessoa não lembro bem quem foi rsrsrsrs
Como toda montanha deve ser respeitada e não é mesmo um passeio no parque..cansa pouco menos que  um PP ou Ciririca eu diria...vão e tirem suas conclusões!









quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

TRAVESSIA 7C - Atravessando Sete Corcovas do Dragão Ibitiraquire

Relato de : Diana Rosa




O papo de fazer a 7C surgiu derrepente, não sei bem como, andávamos falando em fazer o Agudos ou a Graciosa e “ cantando”  o Jurandir Constantino pra nos guiar , além do mais  eu  já andávamos com uma saudade rasgada da Serra do Ibitiraquire e dos nossos amigos de lá . Acho que entre uma e outra sugestão o Jurandir Constantino em papo no chat do face resolveu que essa era uma boa.  topou na hora,  e eu não ia perder , embora mais de 3 meses na mais completa inércia, sem fazer nada de atividade física que não fosse ir até o carro eu sabia bem que ia atrapalhar .... O bicho ia pegar com certeza, mas minha teimosia sempre foi maior que qualquer dificuldade...
A 7C não é pra qualquer vivente, não querendo me gabar agora por ter conseguido termina-la , até porque consegui mais na raça e no psicológico do que por condição física, mas ela é puxada e não é brincadeira fazer 7 montanhas , das consideradas grandes  em menos de 24 hs com um pernoite meio improvisado na chuva...
A previsão do tempo era preucupante: chuva no final de semana todo e trovoada! Me molhar não me importo, nem amassar lama na trilha,  mas raio?  .Cada um seguiu a semana com seus afazeres e na sexta feira embora a previsão do tempo continuasse ruim, e eu ainda tentasse transferir pra uma data mais propícia por causa dos raios o Jurandir me deu a palavra final: “com raio ou sem raio vc vai fazer a 7C!”  Então tá, se ele falou ta falado né...Eu intimamente pensei que ainda na ultima hora eles pudessem desistir e como era o fim de semana que nossos camaradas Elcio Douglas e Helton Laufer  voltavam dos Andes, pensei que seria uma boa em vez de fazer essa travessia meio elétrica, podíamos ir recepcionar nossos amigos e ir comer pizza escutando suas aventuras dos Andes no Mercedário...
Mas que nada...tudo continuou de pé e nosso amigo Elcio voltou antes do previsto, já na quinta feira e quase que foi com a gente, ele que é o autor do traçado da 7C.
Sexta feira , após uma passadinha na Decatlhon nova de Floripa , lá pelas 3 da tarde eu e Sergio botamos pé na estrada, ainda discutindo se íamos com mochila cargueira ou de ataque. Eu queria ir leve,  não abria mão de nada, nem do miojo, fogareiro, facão, roupa de frio, de calor, capaceteeeeeee(modinha inventada pelo Fred), enfim ele fez um mochilão pesado e eu uma mochilinha rosa de ataque com saco de dormir pra bivacar e comida pra 2 dias, além do cantil, só , nem roupa pra trocar, nem anoraque, pensei: vou que nem o Elcio, se sentir frio , me meto no saco de dormir…... hehehehehe gracinha eu me comparando com o Elcio...
Mantivemos contato com Fred e ele com Jurandir Constantino, vulgo, Jura que dizia que em Paranaguá chovia canivete, mas  que mesmo assim tudo de pé...
Umas 19 hs chegamos no posto perto do Bolinha e lá ficamos aguardando o Fred que estava ainda saindo do trabalho e tinha que arrumar a mochila...rsrsrs rapaz responsável, todo metódico, que sabe conciliar a vida de montanhista com a de pai de família, trabalho enfim...todos nós somos assim, fazemos peripécias pra poder alguns finais de semana se mandar pra serra...
O Fred apareceu com uma p.. cargueira também , até barraca ele levava, é pelo jeito a única minimalista era eu...mas ainda faltava o Jura, e assim nos mandamos pra Antonina aguardar nosso amigo que ao invés de pegar o busão da 19 hs pegou o das 23 hs, (atraso de nada) .  Chegando lá como faltava muito ainda fomos fazer um happy hour num bar comer frango frito, caipirinha, cerveja, pra depois após 5 horas de estrada e toda farrinha no bar ir subir os 7 cumes do Ibitiraquire kkkkkkkk , sim era isso mesmo que estávamos por fazer!

Nosso amigo, ídolo  e guia da montanha Jurandir Constantino que fez o Alpha Crucis com Elcio Douglas, desembarcou na rodoviária com uma mochila de ataque, um pouco maior que a minha e assim todos partimos pra deixar um dos carros no fim da travessia e outro no começo, nisso aí gastamos horas pra lá e pra cá kkkkkkkkkkkk depois ainda tivemos que escutar do Elcio que isso que fizemos era coisa de “bêbado de boteco” pois podíamos ter feito a travessia ao contrário afinal só ficaria 40% mais difícil começar subindo a Crista do Ferraria.....hehehehe só Élcio mesmo pra dificultar o que já demanda um esforço homérico .
Bom começamos meio “alegrinhos” lá pelas 3:15 da manhã no Bolinha, dois atletas de montanha (Fred e Jura) um ciclista esporádico (Sergio) e uma ociosa a mais de 3 meses (eu), no começo a diferença do preparo físico já era notável, mas.. como era começo a coisa não era tão gritante assim e  ao amanhecer estávamos todos no Camapuã para um espetáculo no céu.


Após muita euforia pelo céu , nuvens e sol  realçarem ainda mais o relevo montanhoso , explodindo em cores fantásticas, registramos o que pudemos com fotos e tomamos nosso café, o fogareiro do afinal fez seu sucesso e nossa felicidade de tomar café com leite  quentinho , e até cappuccino que o Fred chiquérrimo levou. O Jura parecia meio espantado acostumado a andar com o Elcio que nada leva além de frutas mas participou contente do nosso café quentinho...
Próximo cume seria o Tucum, bem próximo e fácil de alcançar pois fica grudado no Camapuã, chegando lá fizemos nosso primeiro registro da jornada no livro do cume e seguimos pro Cerro Verde passando pela famosinha piramba  do Tucum, uma ladeira vertical que mais assusta que outra coisa pois é tranquila de passar.

Após essa descidinha radical se entra num vale antes de iniciar a subida pro Cerro mesmo que é tranquila de fazer mas pela hora adiantada da manhã , o calor já tomava conta e precisávamos tomar mais água e fazer mais paradinhas ,

.


...ahaaaaaa... ali que aconteceu o primeiro incidente, digamos assim fora do plano,  tínhamos deixado as mochilas supostamente na encruzilhada da trilha que levava pro Itapiroca um pouco distante  do cume, eu achei estranho pois da ultima vez esse local me pareceu mais próximo ao cume  e desta vez parecia bem mais longe...em todo caso segui os muchachos que disseram ser ali o local.  Fomos até o Cerro, assinar livro, foto e dale descer pra pegar as mochilas. Acontece que não era ali o local de pegar a trilha pro Itapiroca, logo Jurandir se deu conta e começou a buscar o local correto. Ali no Cerro dá pra confundir um pouco pois tem vários caminhozinhos, lembramos qual era a trilha e resolvemos prosseguir pois nossos amigos além de bem mais rápidos a essas horas já deviam estar bem adiantados, talvez na subida final do Itapiroca e nós ainda no Cerro Verde....aí o bixo começou a pegar pois estava quente, e aqueles bambuzinhos infernais enroscando na mochila , mais a subida interminável que é o Itapiroca  nos abateu a moral mas pegadas deles na trilha animaram novamente, ..e dele subida do Itapiroca, dele bambuzinho enroscando, dele sol na cabeça...mas vamos em frente. Sede tomando conta, fome e finalmente chegamos numa bica onde encontramos um possível sinal dos companheiros, um sachê de repositor energético fechado bem no filete de água que saia da bica.

Chegando ao cume do Itapiroca quem estava cansada era eu, com calor e escutando trovoadas cada vez mais fortes cheguei a duvidar continuar porque raio em cume é um lance meio  ....desagradável  digamos assim. escutamos uns gritos , logo estávamos todos juntos. Pra eles deve ter sido uma eternidade esperar, depois fiquei sabendo que o Fred subiu como um raio o Itapiroca , ficando o Jura a nos esperar por um tempo mas depois resolveu continuar a subida , portanto subimos todos separados

. Mais um livro assinado ao som de trovoadas nervosas e nuvens pesadas no horizonte perguntei se eles pretendiam ir pro Caratuva naquelas condições ao que eles nem pestanejaram e responderam afirmativamente.  Logo estávamos subindo as encostas do Caratuva o cansaço tinha ido embora e eu só queria chegar no cume do Caratuva pra descansar. . Lá pelas tantas começou a esfriar e pingar,   e a chuva que só ameaçava realmente caiu, aí escutei o Fred gritando : vamo embora pro cume montar barraca logo galera, faltam 300 mts só (na verdade faltava bem menos) a luz foi indo embora , água que Deus mandava e depois de um precioso tempo perdido conseguimos prosseguir, mas já era tarde , naquela escuridão, estando numa trilha alternativa , nada batida, ninguém achava mais nada e eu sugeri mesmo estando próximo ao cume que ficássemos ali, pois diferente do cume do Caratuva era um local coberto, protegido do vento e bem bom de acampar, principalmente pra nós que não tínhamos barraca. Aí Fred pirou : eu tenho que ir pro cume agora!  Pedi em vão pra ele ficar ali que era mais seguro pra todos, diante do tempo ruim, trovoada e vento não seria nada agradável dormir debaixo daquelas antenas uivantes do cume. Mas na verdade a preocupação do Fred era ligar pra esposa e saber da Lara que estava com apenas 1 mês de vida e ele acreditava que lá no cume poderia ter sinal ... ficamos sensibilizados porém nada podíamos fazer : a TIM é um lixo e ninguém conseguia sinal pra ligar e nem era possível já sem luz prosseguir naquela mata fechada fora da trilha que estávamos....
Cada um montou sua “residência” temporáriae dormimos ali bem em contato com a natureza, bichos e tudo mais, anoite eu senti uma coisa comprida se mexer embaixo de mim mas preferi nem ver o que era e dormi de novo. Por fim a gente dormiu e acordou meio tardinho já.  Eu e Jura fizemos um café maneiro no fogareiro  e o Fred fez sopa com linguiça ......

Bom juntamos as tralharadas e fomos pro pico com Frederico, digo pro pico do Caratuva e lá o dia tava magnífico, tiramos oitocentas mil fotos tentamos assinar o livro mas infelizmente os últimos que estiveram lá não deixaram a caneta....pena...agora já sei sempre levar caneta reserva pro cume.



A descida do Caratuva pro Taipabuçu  é uma piramba nervosa, estranha e meio perigosa, acho que bem mais que a decida do Tucum,

 não sei se foi impressão mas lá pelas tantas prendi uma perna numa raiz e o resto de ligamento que eu tinha no joelho esquerdo foi literalmente pro pau, fez clack e temi por alguns segundos que eu não pudesse terminar a trilha andando, ainda caída e sem força nem coragem pra tentar mexer o joelho , talvez tentando retardar o momento de descobrir que eu não poderia andar, fiquei parada por mais de um minutofinalmente resolvi enfrentar a verdade e levantei...tentei firmar o joelho...fiquei de pé...dei um passo..outro, faltava mais da metade da decida do Taipá  e esse seria o meu ritmo até o fim dela, mais o medo do joelho sair do lugar que dor propriamente dita, isso eu nem sentia, e se sentisse nem fazia diferença. Infelizmente isso demandou triplo do tempo  de uma decida normal . O Fred e Jura já tinham sumido de novo não antes de combinarmos de nos encontrarmos novamente na transição Taipá –Ferraria, e que transição, era um bambuzal dos infernos, onde tínhamos que nos arrastar e lutar pra desvencilhar de verdadeiras armadilhas de bambu... Após isso estávamos subindo o Ferraria e assim meu joelho descansou já que subida por incrível que pareça não incomoda . Encontramos o Jura nos esperando após uns 10 minutos de subida e após dizermos que estava tudo certo, liberamos o homem pra ir na frente, o Jurandir parece um ninja das montanhas, é silencioso, quase não deixa vestígios e ao contrário de nós que quase nos matamos , lutando naquele bambuzal ele parece ser feito de alguma matéria que transpassa os bambuzinhos pois ele passa tranquilamente quase sem sair do traçado dele, não me pergunte como isso acontece mas é assim que é....fala pouco, conta uma outra história engraçada das andanças dele com figuras conhecidas do meio montanhístico , sempre com simplicidade mas muito bom humor, grande amigo, grande guia e  parceiro de trilha!


O Fred era o raio da trilha , parecia estar ou correndo ou indo atrás de alguém, , o homem de capacete ,  anoraque e mochila pesada parecia não ter cansaço e seguia sempre full , adrenado , ligado nas fitas e marcas da trilha, compenetrado e decidido ele parecia seguir um plano interno além do plano geral da equipe, um objetivo dele , bonito ver esse tipo de determinação numa pessoa,  só em alguns momentos ele parecia perder o foco, era justamente quando ele via seus planos certos sendo ameaçados por dois irreverentes e inexplicáveis seres como eu  acostumados ao improviso rsrsrss ô paciência que esse Fred teve que ter com a gente, mas tudo é aprendizado e ele parecia conformado com isso também hahahahahahaha



Já na parte final da subida do Ferraria recebemos a visita ilustre de uma Jararaca gigantesca, bem enrolada no meio da trilha , e cabeça imponente armada pro bote, tiramos fotos da amiguinha nada sociável , desviamos e deixamos ela em paz como deve ser, seguindo em frente.


Finalmente todos reunidos no Ferraria resolvemos iniciar a derradeira decida da Crista dos 500 anos.



 Já eram quase 18 hs quando iniciamos e eu preucupada com a escuridão que viria logo e pouco conhecimento dessa trilha não tão batida em alguns pontos pedi ao Jura e Fred que não se afastassem tanto, meu joelho tava péssimo e na descida qualquer resvalada podia significar um final bem amargo pra essa travessia, pra todos nós, já que se eu quebrasse em qualquer ponto, só sairia dali com ajuda , mas pra que pensar em tragédia, bora pensar em solução né mesmo? Como a decida era lama pura e cheia de pirambas meu joelho bambeando e sem ligamento posterior não ia aguentar um erro que fosse, resolvi usar a Crista como escorregador onde eu pudesse e assim foi, desci as pirambas lamacentas no skibunda mesmo ou me pendurando nos galhos mais fortes , tirei minha corrente talismã do pescoço e botei no bolso traseiro da calça e lá se fomos descer a Crista. A trilha é boa, foi muito bem aberta pelo saudoso Jamil dos Santos que passou um bocado de trabalho pra deixa-la aberta e transitável, todos que passamos ali devêmos te-lo na lembrança pois foi um trabalho heroico e bonito o que ele fez nessa trilha, nossas mais gratas lembranças a ele por isso. Ainda com luz passamos num degrau perigoso onde é necessário cordas , meu parceiro e maridinho fofo  , safo que é nessas horas,  me ajudou a supera-las de boa , e mais 20 minutos a luz ia embora e a escuridão tornava a Crista mais imponente e difícil de ser vencida, na verdade não é difícil, mas é extenuante e interminável, lances e mais lances de pirambas , nivela e depois mais piramba e assim vc passa por horas numa mata cheia de bichos cada vez mais indignados com sua presença por ali.  Fred e Jura na frente , Fred cantando, chamando  assoviando e assim íamos vencendo a decida interminável, certo momento eu já estava com um rasgo na parte traseira da calça ,mas eu percebi triste que minha corrente talismã guardado nesse bolso tinha virado lenda.


Derrepente senti uma picada no pescoço, dei um tapa e continuei.....mais uma picada!  hj fui saber que se tratava de uma espécie de “ cobrinha”, como não morri até agora acho que não morro mais....
Meio que perdíamos a trilha por algumas vezes mas o Jura com seus sexto sentido de homem da montanhas sempre procurava nos lugares certos e logo estávamos na trilha de novo,  Fred o homem foco também soube encontrar várias vezes o rumo certo, já na finaleira eu e o Sergio fomos atacados por formigas “carnívoras”  e desesperados sendo comidos vivos íamos esmagando e tirando elas do corpo, acontece que elas pareciam renascer e cada vez mais pra cima, e eu deseperada não parava de gemer e reclamar das formigas me picando, isso deve ter tirado o Fred do sério e acabado com a ultima paciência dele mesmo pedindo licença meio que mandou eu  tirar a parte debaixo das minhas calças que é dessas que vira bermuda , foi engraçado pois ele falava como se fosse com uma criança que fez merda: “tira as calça Diana, agora tira as formigas”,
Bom acho que depois disso foi o fim mesmo, pra finalizar tinha um espinheiro violento que tinha fechado a trilha.
Ainda tínhamos longos quilômetros até a fazenda e aí sim as forças foram acabando, eu com joelho fudido, rasgada , picada e suja de lama, êeeee perrengue bom esse!
Nossos amigos incansáveis pegaram chave do carro e foram na frente pois tinham muito mais gás pra isso e nós feridos de guerra fomos a passos lentos primeiro até o cruzamento e depois vendo que eles demoravam até quase a fazenda onde nossos amigos nos aguardavam já no carro.
Nós tínhamos que dirigir até Floripa e já eram 3 da manhã, por isso Fred gentilmente dirigiu pra que nós pudéssemos descansar levando Jura nosso guia para casa em Paranaguá pra depois irmos até o Bolinha resgatar o carro dele . Assim terminou nossa super aventura , como sempre cheia de histórias de superação do físico e do psicológico, mais uma pra ficar na memória ! Se a Travessia Transversal foi uma experiência mística e surreal a Travessia 7C pra mim foi a travessia da realidade crua onde tudo se apresentou para que pudéssemos pensar numa solução, provações e experiências transformadas em aprendizado. Sou grata por isso mais uma vez, por ter oportunidade de caminhar na serra com pessoas super especiais.