sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Caminho de Itupava – Caminhada ao passado



O caminho de Itupava não era bem algo que me despertasse muita vontade de fazer, talvez pelo fato de não ter um cume a alcançar, nem grandes alturas a ganhar ( muito pelo contrário pois o caminho na realidade  é uma descida quase constante ) eu relutava e sempre deixava pra outra hora . Mas enfim por insistência do Gera que sempre falava da beleza do caminho e reforçado pela também insistente Juliana em refazer o caminho colonial por onde ela havia passado de trem e queria fazer a pé, acabei aceitando resignada (rsrsrs) fazer o caminho nem que fosse pra calar a insistência do Gera que já havia dito que não faria mais nenhuma montanha se a gente não fosse conhecer o histórico caminho que por muitos séculos foi a única ligação entre a planície litorânea e o alto planalto paranaense.
Mas eu nem teria cogitado ir se não estivesse incluído no roteiro uma passada pelo Anhangava e pernoite no refúgio 5.13 , uma pousadinha  show de bola onde montanhistas e escaladores  constumam ficar pra escalar as vias do anhangava . Pra apimentar um pouco a programação propûs um carreteiro com vinho no sábado a noite no refúgio  depois de fazer o anhangava e na manhã seguinte partiríamos pra pernada no caminho do Itupava.

Anhangava

Diana - Anhangava

O fim de semana foi excelente, no sábado a ida ao Anhangava pela manhã serviu pra aquecer a musculatura das pernas pra caminhada do dia seguinte e checar as várias vias que esse morro oferece pra quem curte escalada em rocha, ainda volto lá pra escalar..

Uma das vias no Anhangava





Compras pro carreteiro da noite


O Refúgio 5.13 é uma excelente opção pra  montanhistas, tendo ótima localização, bom ambiente, uma cozinha ótima , banho quente com ducha boa, enfim o lugar perfeito pra se ficar no pé do Anhangava . A noite não estava tão fria mas o suficiente pra dar aquele clima que o nosso carreteiro pedia regado a vinho , hmmmmm.. . ficou delicioso e passamos excelentes momentos antes de ir dormir cedo pois ficou marcado 5 da manhã pra todo mundo pular da cama .


Refugio 5.13

O Lobo e meu celular acordaram juntos e às 4:30 começou a movimentação. Café da manhã, confecção do lanche pra trilha, sanduba, fruta  que inovou levando resto do carreteiro numa garrafa PET de 2 lts , parecia esquisita a idéia , mas na trilha lá pela metade o carreteiro foi bem vindo.
O caminho de  Itupava  é realmente bonito, a trilha conserva o calçamento original de pedras (muito escorregadias) em quase toda extensão,  “passa ao lado das ruínas da Casa Ipiranga e cruza a ferrovia.

Segue bem preservado até novamente cruzar a ferrovia no santuário do Cadeado, nascendo a meio caminho uma trilha a esquerda que leva à represa, à estação do Véu da Noiva e a cachoeira homônima.


Nsa Senhora Cadeado e visão pro Marumbi


Continua abaixo do santuário passando por uma grande clareira, onde se fazia as cobranças dos impostos e encontra a estrada pouco abaixo da estação Engenheiro Lange, daí continua margeando o Rio Nhundiaquara” (site Rumos)  .
Como todo amante de história e seus monumentos, gosto de ruínas e casas antigas mas a Casa do Ipiranga é de dar dó, completamente pichada, abandonada e depredada, uma pena.
Mas o bonito mesmo é ver os trilhos da ferrovia em meio aquela natureza exuberante, cercada de cachoeiras, montanhas e mais adiante a visão do Marumbi imponente.  Tirando o caminho extremamente escorregadio das pedras  (que me rendeu um tombo)  a trilha é fácil e sem maiores dificuldades embora cansativa pela extensão e bem desgastante para os joelhos pelas descidas, mas enfim o valor histórico é indiscutível, me perguntei o caminho todo como seria o transporte de cargas e pessoas em carroças por aquele caminho de pedras em meio a mata, de quantas histórias e dramas aquilo fora  palco, e como os pobre animais suportavam aquele castigo de descer em meio a pedras escorregadias  aquele caminho tortuoso.

Diana e foto clássica nos trilhos claro..

No site Rumos encontrei trechos que responderam minha pergunta na semana seguinte, transcrevo aqui o texto de uma antigo relato do Auguste de Saint`Hilaire - Viajante e Naturalista Francês.

“O primeiro passo difícil que encontramos, tem o nome de Pão de Loth. Neste lugar o caminho é coberto (calçado) de grandes pedras arredondadas e o seu declive é muito acentuado. De vez em quando as bestas de carga são forçadas a dar saltos assustadores para o viajante que nunca passou por essa serra.

A estrada volta a ser passável até o lugar denominado Boa Vista, porque daí se vê grande parte da planície que se percorreu antes de chegar a serra.


Na Boa Vista o caminho é cortado na montanha, numa profundidade de perto de quatro metros e não oferece mais que uma passagem estreita onde as mulas não avançam sem raspar-se com sua carga à direita e à esquerda. Logo começa-se a ver adiante de si um dos mais altos picos da serra, o Marumbi, cujos flancos cortados verticalmente não mostram, em vários lugares, senão rocha viva. A estrada vai se tornando cada vez mais difícil; em certos lugares ela é cavada na montanha a uma profundidade considerável, tem pequena largura e é coberta pela folhagem das árvores, que se entrelaçam no alto e privam o viajante da luz do dia. Em outros trechos são os atoleiros que surgem, e é com grande dificuldade que os burros se livram deles; finalmente há bruscos desníveis no terreno, que obrigam os animais a dar grandes saltos. Em vários lugares foram colocadas algumas achas de madeira sobre os atoleiros, mas os animais escorregam ao pisar sobre suas superfícies arredondadas e molhadas, correndo o risco de cair a todo momento.


A pior parte de todo o caminho é o começo da descida; tem o nome de Cadeado, o declive aí é rapidíssimo; os ramos entram pelo caminho que é cortado abaixo do nível do solo, e o tornam muito sombrio, avança-se por cima de grandes pedras escorregadias, e as mulas são freqüentemente obrigadas a se jogarem com suas cargas. Eu não cansava de admirar a habilidade desses animais para se safar de situações difíceis. Eles são treinados inicialmente para fazerem a travessia da serra sem nenhuma carga no lombo, em seguida levando apenas a cangalha e, finalmente, transportando a carga. Muitos morrem nos primeiros treinos, mas depois que a travessia foi feita muitas vezes os animais não encontram nenhuma dificuldade em enfrentar os obstáculos que o caminho apresenta a todo momento. Eles sabem escolher, com sagacidade extraordinária, os lugares onde podem colocar os pés com segurança.”




Enfim valeu a pena a trilha, foge um pouco do que eu mais gosto que é subir montanha e ganhar altura, mas valeu a pena pela importância histórica e beleza do caminho. E ah! Claro sigo cada vez mais apaixonada pelo  Paraná , pensando seriamente  em me mudar pra cá..

Terezinha



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Escalar? heheheh

Eu e uma pegada "Anunnaki"







sábado, 18 de agosto de 2012

APRENDIZADOS COM A ESCALADA

A cerca de 2 meses escrevi esse texto sobre escalada...



Comecei a escalar em rocha á pouco tempo, até 2011 realizava apenas “escalaminhadas” pelas montanhas das serras catarinense e paranaense. Ao longo deste pequeno período tenho vivenciado prazeres e sentimentos diferentes de tudo que havia feito antes. Também tenho adquirido alguns aprendizados que devido à intensidade da escalada tendem a ser rapidamente absorvidos.

            A escalada incentiva o corpo a produzir uma grande quantidade de adrenalina e endorfina, substancias que estão ligadas a sensação de prazer, neste caso particular um prazer intenso e único!
            Escalar ensina a ter comprometimento com os objetivos traçados, se você entra numa via na rocha, se compromete em conquista-la, pois muitas vezes voltar é impossível.
            Ter sorte na escalada é algo raro, então é necessário sempre ter um plano B e estar com a logística preparada para realiza-lo.

            Hesitar é terrível para um escalador, um momento de hesitação em um movimento difícil pode significar uma queda e um machucado, então ter confiança e saber assumir os devidos riscos é fundamental para a conquista.
            Escalar cria fortes laços de amizades. Afinal, em caso de queda sua vida depende da segurança feita pelo seu parceiro de escalada.      
Muitas vezes força em excesso só nós traz problemas e desgastes precoces. A delicadeza é indispensável na maioria dos momentos.
            O medo é necessário, mas saber controla-lo é fundamental para o sucesso. Se você fica pensando o tempo todo que pode cair e se machucar, terá uma queda certa! Descansar e relaxar são imprescindíveis. Muitas vezes o objetivo está longe e pequenas pausas devem ser feitas para se recompor.

Cair faz parte. A queda em si, não é o problema verdadeiro, mas sim a forma como você cai. Se for inevitável cair, é necessário buscar a melhor forma de se proteger e a melhor forma de subir novamente.
            Vias de escalada assim como a vida não são feitas de linhas retas. Saber olhar para os lados pode encurtar o caminho para o sucesso e salvar vidas.





           
 Escalar é se defrontar com novos problemas constantemente e obter um novo aprendizado a cada nova via, a cada nova variante. Escalar é sem duvida alguma, viver intensamente!!!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ciririca: Desafio na Serra do Ibitiraquere


Placas do Ciririca

Já fazia um ano que eu  e um grupo de amigos que gostamos de fazer montanha vinhamos alimentando a idéia embora temerosos de enfrentar o tal  “K2 paranaense” como ele é conhecido . Animados por alguns perrengues no PP (Pico Paraná) , Monte Crista, e outras montanhas de respeito que tínhamos enfrentado trilha sob condições adversas( como chuva e mau tempo), resolvemos incluí-lo em nosso currículo montanhístico como desafio e conquista almejada.
Foram várias as datas marcadas, mas sempre de ultima hora alguém considerava arriscado, que o tempo não era propício, que era melhor fazer um planejamento seguro, que 2 dias era pouco (tinha que ser num feriado) que haviam outras montanhas a conhecer antes de enfrentar o K2 da serra do Ibitiraquere, enfim...o grupo queria,  mas ainda era  tímido na decisão.
Finalmente a idéia amadureceu, e de tanto falarmos do quanto o Ciririca ia tomando ares míticos para nós, resolvemos que era melhor enfrentar isso logo.
A data finalmente parecia agradar a todos e pra selar a garantia de que o momento era o certo, a previsão para esse fim de semana (13,14 e 15 de julho de 2012) era perfeita, trilha seca no sábado e amanhecer ensolarado no cume com alguma possibilidade de chuva somente no fim da tarde de domingo quando já estaríamos retornando à  fazenda do bolinha.
Eu tinha lido muito relatos sobre o Ciririca e conversado via internet com  montanhistas super experientes , além de pesquisar o clima, os trechos mais perigosos e tudo que envolvesse o Ciririca.
O grupo tinha em comum a parceria para aventuras sendo alguns  montanhistas, alguns escaladores de rocha como tbém praticantes de trekking. Embora o currículo do grupo como um todo incluísse montanhas  como Pico Paraná, Cambirela, Pico do tabuleiro e Monte Crista , nenhum havia enfrentado uma mais agressiva como o temido Ciririca, famoso por suas rampas com trechos de rocha exposta e íngremes  a vencer na investida ao cume.
Marcada a data, começamos o planejamento, incluindo estudo da trilha, trekking no GPS, dicas valiosas de montanhistas experientes e check list de mochila além de uma reforçada no equipamento de montanha pra enfrentar tudo da forma mais tranquila.
De minha parte tratei de preparar o psicológico , pois já estava meio ansiosa com tantos relatos  do quanto o Ciririca metia medo, e como todo medo só se mata enfrentando resolvi  me dar essa chance.
Chegada a hora , como combinado partimos de Van empolgados e ansiosos com a aventura que nos esperava e certamente nos orgulharia em vencer , pegamos o Gera num ponto de encontro perto de Curitiba  e fomos pernoitar no Tio Doca já com cargueiras prontas e disposição pra chegar na montanha do Bolinha as 5 da manhã gelada . A previsão era de geada e muito sol ,portanto prometia  noite estrelada e provável amanhecer na montanha ensolarado com sorte mar ou cascata de nuvens...
Depois de um reforçado café da manhã partimos pra fazenda, ainda escuro tivemos a visão desanimadora de uma fileira de carros no estacionamento. Já tínhamos sido advertidos que a montanha mais remota e pouco frequentada do Paraná inusitadamente  ia ser visitada por um grupo de montanhistas para um evento no cume ,  estávamos meio apreensivos pela falta de lugar pra montar barraca, mas aquela fileira de carros indicava gente demais na montanha...


Botamos pé na trilha 5 hs , rádios ligados , alguns com GPS, lanterna na cabeça e cargueira nas costas, bastões de caminhada,  nos metemos na mata escura e gelada que fazia nossa respiração condensar no ar.
A trilha do Ciririca até o cruzo é a mesma que leva ao Tucum e Camapuã, começa por bosques exuberantes, cruzando um riacho e serpenteando por entre a mata onde árvores gigantescas causam assombroo pela espessura e tamanho do tronco.  Logo um trio de Curitiba nos alcançou dizendo que fariam bate e volta , estavam sem cargueira e com passo bem mais rápido que nós e após breve papo e desejos de boa sorte sumitram na nossa frente. Depois de 2 horas de caminhada lenta sempre subindo chegamos a esse ponto ou cruzamento onde há duas placas , a da esquerda  indica o Tucum e a direita o Ciririca que sempre causa calafrios e parece dizer : pra direita só os fortes e...malucos hehehe.  No grupo cada um ia no seu ritmo alguns bem mais rápidos e outros mais lentos , como eu  que  tenho ligamento posterior rompido no joelho que me faz ter menos equilíbrio, menos  firmeza na pisada da perna direita,como boa taurina isso não me impede de continuar essa sina de subir montanha e se meter no maio do mato . Chegamos antes das 8 no cruzamento onde os mais rapidinhos já tinham chegado. A hora tinha chegado, agora era pro Ciririca de fato, dia claro combinamos de fazer nosso primeiro lanchinho no poço das fadas que é onde se chega após descer  trechos íngremes de desescalaminhada em raízes . E foi lá que nos reunimos novamente . Para o grupo mais rápido devia ser chato interromper a caminhada pra esperar os retardatários mas conforme combinamos, nada de nos separarmos afinal a trilha era traiçoeira em certos trechos e todo cuidado era pouco.  (Na verdade depois constatamos que embora confusa em certas partes a trilha é toda bem marcada por fitas) .
Vencida essa etapa o próximo ponto de parada e união de todos  foi a Pedra da corda, o Diego e Ruan desceram primeiro a rocha vertical onde estão afixadas duas cordas numa descida de 5 metros aproximadamente, o suficiente pra causar cólicas em alguns, sinceramente não me assustei como pensei, após os meninos, todos descendo com facilidade até porque escalam em rocha tbém , foi a Juliana e quando chegou na Teresinha causou um certo stress já que a bota dela não encaixava na única fenda onde ela poderia colocar o pé para apoiar na descida, mas com calma e ajuda ela venceu essa etapa, minha descida foi tranquila  .
Diego na Pedra da Corda


Já estávamos todos com fome e o ponto marcado pra lanchar foi a cachoeira do professor, onde todos já estavam bem cansados mas  após nos alimentarmos  e descansarmos já revigorados  ainda tivemos  disposição pra tirar fotos, feito isso  novamente o grupo dos rápidos sumiu na frente e os outros iam bravamente tentando não distanciar tanto. O Gera ,o mais experiente de todos em trilhas e montanhas no Paraná sempre preocupado em dar as dicas pra nós da retaguarda sobre trechos duvidosos e confusos de seguir na trilha. A dupla Diego e Ruan sempre muito solícitos em ir à frente guiando a todos na dianteira...
A Terezinha, mais habituada a trilhas de Floripa, estava estreando nas montanhas do paraná justo no Ciririca, mas nunca reclamou e foi extremamente guerreira. Tom também de Floripa  já conhecia o Tucum, mas sempre disposto acompanhava bem o ritmo extenuante dessa  caminhada sem fim.
Diana na Cachoeira do professor

Em certo ponto, um grupo de 3 montanhistas passou por nós e ao ser perguntado quanto de estimativa até o cume, nos respondeu 4  ou 5 horas o que meio que desanimou alguns que esperavam já estar mais adiantados, pra mim que já tinha lido mil relatos sabia que ainda não era hora de pensar em cume e sim em chegar no “ última chance”.
Ultima chance é o nome do ultimo ponto de água boa , por isso o nome, mas alguns dizem ser o último ponto de desistência antes de enfrentar a real subida ao Ciririca.
O trecho entre a cachoeira do professor e o ultima chance pra mim foi o mais extenuante.. novamente subidas e descidas intermináveis por vales e encostas de morro é de deixar qualquer um abalado psicologicamente, além do ambiente naturalmente assustador com vales profundos e emaranhados de taquaras que travam toda hora a cargueira e fazem o mais paciente dos viventes praguejar ao tentar se soltar.
A temida rampa do Ciririca, aquele pontinho branco é um coitado subindo a rampa ...
Simbolo da travessia mais dificil do Brasil: Alpha Crucis
Finalmente chegamos ao ultima chance, após avistar o marco da travessia mais difícil e longa do Brasil  “Alpha Crucis” avisei a todos que dali pra frente era “só alegria” já que finalmente ficaríamos frente a frente com Ciririca . Nos alimentamos e após abastecer cantiis, garrafas de água  , todos com 4 litros em média a mais de peso pela água e um breve descanso animados com a perspectiva de ver a cara do bicho nos metemos  na trilha de novo, dessa vez subindo e que logo adiante saímos  em um campo de altitude aberto, ali podendo avistar  o Ciririca  e suas rampas.
Eu já estava curiosa em ver as tais rampas e tive a sorte de ver um grupo de montanhistas vencendo as rochas expostas e íngremes pesadamente e lentamente com cargueira nas costas, como já estava preparada psicologicamente e tinha o alívio de que meu heroico marido pensando na minha segurança e dos demais tinha levado uma corda pois caso houvesse um escorregão a corda seria salvadora.  Palmas pra ele pois após vencer o trecho aberto e entrar na mata de novo , mais adiante vc sai e dá de cara com elas , as rampas, sendo tudo ou nada, os mais rápidos já haviam vencido a rocha exposta e tinha chegado nossa vez , de cargueira subiu facilmente o primeiro lance de rocha, animada fui atrás vencendo também esse primeiro lance , logo adiante estava o Gera com cara super preocupada e o Tom também que haviam ficado pra ajudar se preciso. Logo depois desse primeiro lance de rocha , mesmo animada me dei conta que o segundo era meio tenebroso e ao invés de passar perrengue desnecessário pedi a corda  que fez a segurança e desta forma subi facilmente os outros lances de pedra, segurando na corda. Na realidade a pedra tem aderência boa e mais mete medo que outra coisa, já que com calma e confiança  , a pedra estando seca é possível vence-las, mas o risco de resvalar existe então todo cuidado é pouco.
Vencida as rampas na rocha a trilha continua rumo ao cume por uma crista e depois mais um trecho íngreme que parece não acabar nunca , tirando do mais animado ser da face da terra qualquer expressão de alegria, a subida é cansativa o cume parece inalcançável , no meu caso eu tinha uma alegria de ter vencido tantas etapas e como estava tranquila pude admirar a silhueta maravilhosa do Pico Paraná no entardecer, com uma névoa fina deixando a visão mais surreal ainda.
Mas até eu e minha empolgação perderam força na investida final já que a preocupação por lugar para por barraca , começou a aumentar ao  ver mais um  grupo de montanhistas chegando atrás de nós e no nosso encalço com a mesma intenção de encontrar espaço de acampamento.
Cansaço , preocupação com espaço terminaram por me vencer , mas inesperadamente surgem as placas do Ciririca e uma emoção enorme me invade....aperta agarganta e até vontade de chorar eu tive..não pelas placas, mas porque inesperadamente a visão delas tão perto de mim significou  a vitória de uma batalha de meses, ansiedade, medo, estudo e noites sonhando com o momento em que eu estaria cara a cara com o dragão  do Ibitiraquere. 
Vista já no ataque final ao cume

Eu na adrenalina da chegada
Não pensei mais nada e dei meu grito de vitória junto aos  amigos que nos  nos esperavam animados e orgulhosos por estarem com o pé no lombo do Ciririca. O Ruan documentou a chegada e nesse instante o por do sol mais lindo deu um show  nas alturas , minha máquina não funcionou e de emoção não lembrei de assinar o livro do cume, mas isso podia ficar pra amanhã, depois do glorioso amanhecer na montanha que eu tanto ansiava.
Enquanto  montava a barraca no lugar em que o  Tom e Gera gentilmente reservavam pra nós embaixo da segunda placa, no total haviam 24 pessoas no cume incluindo um grupo de policiais florestais com uma bandeira do Brasil hasteada. Barraca montada , fotos do por do sol , vimos um casal encima das placas se beijando, depois fui saber que a mocinha tinha sido pedida em casamento naquela momento... Surpresa pouca é bobagem e no momento do por do sol um imenso “X” de fumaça se formou bem acima do cume, parecendo marcar o lugar de alguma forma, 5 objetos voadores passaram acima do X (aviões? Não sei pois não piscavam....)
Fizemos o jantar quente, macarrão com calabresa e queijo ralado hummmmmm...suco geladinho da água de cachoeira e caí extenuada sonhando com o amanhecer ensolarado.
A noite caiu e com ela um vento gelado que foi aumentando, mas o céu limpo e estrelado continuou até as 3 da manhã , hora em que acordei e  pude constatar.
Bem mais tarde, silencio na montanha, todos dormindo ,  uma rajada de vento gelada me atinje o rosto, acordei e vi que a capa da barraca voava, ao abrir pra arrumar e descer o fecho da barraca não pude acreditar: chuva, neblina e vento ensurdecedor que batia nas placas, o tempo tinha virado e a história do domingo também!
O resto da história era obvio :  na madruga ventos medonhos , chuva e nevoeiro espesso praticamente expulsaram a todos do cume ,pouco a pouco todos foram desmontando barraca debaixo de chuva e ventos em fúria o que indicava que a coisa não ia melhorar. Após breve debate todos concordamos em sair dali o mais rápido possível , em pouco tempo o cume tinha esvaziado , ultimas fotos do cume branco, sem visibilidade nem das placas, Tom e Gera após nos ajudarem a desarmar rapidamente a barraca foram descendo, policiais e nós dando o fora rapidamente do cume já eram 10:30 de um domingo cinzento e revoltado na montanha.


 Logo chegamos na rampa e a maioria desceu com ajuda da corda dos militares, nós os últimos descemos meio de esquibunda , meio nos agarrando na vegetação lateral e fim de conversa...rumo ao ultima chance ( com todo esse perrengue em formação esquecemos de novo do livro do cume..paciencia ) A trilha da volta foi tensa  todos enfrentaram uma trilha gelada e com chuva, os últimos a sair do cume ,depois da pedra da corda uma trilha noturna gelada , encharcada de chuva e sem visibilidade pelo nevoeiro na profundeza dos vales.   Em nenhum momento nos perdemos, naquela escuridão abismal dos vales agimos com lucidez  e sempre com calma, percebi o quanto valeu meu preparo psicológico de meses pra enfrentar uma situação daquelas, mesmo que ela não estivesse incialmente nos planos já que a previsão indicava tempo limpo. Avançavamos muito lentamente por causa do meu joelho frágil e trilha enlameada e escorregadia.... Houveram trechos tensos principalmente porque a trilha tinha virado pequenos riachos e não fossem as fitas a coisa poderia ter ficado feia, mas tínhamos as pegadas pra nos orientar além das fitas e trechos mais macetados,  pedras sem limos e assim conseguimos vencer heroicamente e sem nenhum nervosismo até o cruzo..vitória!
Ao chegar na fazenda a senhora , nos ofereceu banho quente (maravilhoso) e de roupas secas comemos pastel de carne e queijo( 7 ao todo)  com café quente, manjar dos deuses.
. Eu pessoalmente  tenho orgulho, mesmo mais lenta pelo problema no joelho ,  tive meu mérito pois de longe meu psicológico sempre se manteve positivo e funcionando
Aprendi muitas e infinitas coisas mas uma eu considero a mais valiosa, o psicológico na montanha é que faz a diferença , e quando vc sabe e estuda uma determinada situação vai mais seguro pra mata ou montanha e nada te assusta. Ciririca foi uma prova de fogo.. me sinto como quem deu mais um passo pra domar uma fera e conquistar sua amizade e confiança..no caso a fera não foram as rampas e sim o ambiente hostil da montanha com tempo ruim e a profundeza da mata na noite gelada e molhada , o resto ... bem   rsrsrs  agora é brincadeira de criança...
Localização – Serra  do Ibitiraquere – Campina Grande do Sul - PR
Altitude – 1.760 mt
Acesso – Fazenda do Bolinha 
Tempo de trilha – 8 a 12 hs dependendo do ritmo e condicionamento físico , condições climáticas e peso da mochila.
Nível de dificuldade  - Médio a difícil pelo desgaste físico,  trilha bem marcada por fitas porém trechos que  podem confundir  por atravessar várias vezes o rio,  além do fato que quando chove apaga um pouco a trilha. Muitas escalaminhadas e desescalaminhadas  verticais. Rampas do Ciririca merecem atenção e cuidado especiais embora a rocha tenha aderência, são escorregadias se molhadas.


Diego, Gera, Tom e Terezinha

Diana, Gera e Tom chegando na metade da ultima subida

Vista do Ciririca pro PP



Ruan e eu


placas

Ai cheguei ...




noite no cume, tempo bom ainda

visão que só quem vai no Ciririca tem





quinta-feira, 1 de março de 2012

Naufragados : uma trilha pra iniciar as crianças














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Já no início a  Jade parecia uma princesinha empolgada, tomando cuidado pra não sujar as mãos, expliquei que não tinha problema nenhum que agarrasse com vontade nos troncos, pedras para que pudesse se equilibrar naquela pedregosa inicial. O  Gabriel tinha ares de um desbravador de florestas virgens ,  a animação era alta mas sabíamos que isso podia acabar depois da primeira meia hora.
Tive uma das mais  mais agradáveis  surpresas da minha vida após a primeira  hora ao perceber que cada vez mais os olhos deles se enchiam de alegria, encantados e cheios de perguntas sobre o que viam e obstáculos que transpunham , vi duas criaturinhas urbanas criadas em apto,  rapidamente se transformarem em dois guerreiros incansáveis e decididos a impressionar os pais malucos por montanhas  . Foi emocionante e gratificante perceber que eles já estavam prontos , ao contrário do que eu esperava,  e até me recriminei por subestimá-los e ter esperado um comportamento mimado ou pouco resistente. Que nada, tudo até as resvaladas e passos iniciais meio trôpegos em meio as pedras causava mais empenho em não nos decepcionar. Logo me transformei na mãe mais orgulhosa e deixei que a experiência fluísse, que eles se sujassem, caíssem, fizessem suas tentativas de travessia de  um pequeno riacho por entre as pedras, sempre por perto lógico garantindo a segurança deles.
Eles venceram 2 horas de trilha até a praia num ritmo muito bom, sem pedir pra sentar ou lanche ou reclamar, apenas água de vez em quando e uma ou duas pausa pra fotinhos de suas façanhas em meio a mata. Houve até um período de chuva fina, mas chegando  na praia  o tempo abriu.
Podiamos ter comido um peixe frito ali mesmo mas decidimos aproveitar o gás e  voltar pra comer só no bar do Arantes na Armação. Novamente meus pequenos guerreiros botaram pé na trilha sem reclamar e após mais quase  2 horas estávamos no carro rumo a felicidade da comidinha maravilhosa que nos aguardava, claro que dormiram em 5 minutos amontoados no banco de trás ,  exaustos, mas ao chegar na praia pra almoçar já estavam super dispostos de novo e ao sentir cheiro de comida  atacaram  o buffet do Arantes  como dois aborígenes famintos. No retorno pra casa se sentiam vitoriosos,  agora eles eram iguais aos seus pais, espero em breve leva-los pra uma com pernoite na mata ou praia...



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Pico Paraná - A Revanche

...ou  PP como é carinhosamente chamado, é considerado o Everest da Serra Paranaense, ponto mais alto da região sul do Brasil, com seus 1.877 mt de altitude.
Fica no conjunto de montanhas chamado Ibitiraquire onde estão as mais altas montanhas do Paraná.
O acesso se dá pela Fazenda Pico Paraná, do Dilson em Campina Grande do Sul.
A fazenda do Dilson oferece boa estrutura para os montanhistas , tendo estacionamento, banheiro (quando não está quebrado) e lugar para acampar para os que  preferem,  fazer   as montanhas que tem acesso pela fazenda de ataque : as mais conhecidas Itapiroca, Caratuva ,  e o majestoso Pico Pataná
Já tinha tentado uma investida ao PP anteriormente ocasião em que acampei no A1 mas ainda inexperiente na Serra do Ibitiraquiere abortei o ataque ao PP no dia seguinte mais por apreensão e respeito pela montanha que pela dificuldade como pude contatar na segunda ocasião em que fui com chuva , vento e mesmo assim conquistei o cume da montanha mais alta do sul do Brasil.
Nesta segunda investida já tinha subido as outras montanhas mais conhecidas , de dia e a noite também,( até certo ponto são a mesma trilha ató o PP )  portanto já conquistado o cume do Itapiroca e Caratuva um par de vezes o que tinha me dado confiança suficiente pra andar por essas bandas com bastante segurança e conhecimento.
Os companheiros dessa jornada foram os de sempre.
Foi uma trilha tranquila na ida, embora cansativa e com tempo já não muito bom, montamos acampamento no A1 já com chuva e resolvemos decidir o que fazer no dia seguinte. Amanheceu mais feio ainda: vento, chuva e frio , após um café quentinho e algum debate se voltavamos ou iamos em frente, decidimos encarar o gigante mesmo com tempo ruim, pensando que iriamos até onde fosse possível...saímos do A1 rumo ao A2 na  meia manhã num ritmo bom  e rindo de mais esta "indiada"  na chuva . A descida do A1 pro A2 é uma trilha meio fechada mas demarcada  ,  40 minutos adiante chegamos nos tais grampos pra subir pro A2 os quais não achei tão difícil , exceto numa parte meio escorregadia onde parece faltar grampo e meio que tem que se segurar só na rocha mesmo, mas nada impossível ou realmente perigoso.


Encontramos gente descendo, inclusive um pai que aventurou a levar o filho  de uns 10 anos com cadeirinha e corda de escalada. Continuamos a subida e acredito que a neblina e núvens acabaram ajudando pois encobriram os precipícios que nós cercavam  por onde andavamos rsrsrs mas o fato é que iamos muito seguros e sem maiores preucupações , após o A2 onde tem a casa de pedra o resto da trilha tem mais um trecho meio intimidador que é uma rocha onde está disposta uma corrente para ajudar na subida e onde o lugar é bem estreito e tem precipício dos dois lados, me deu um medinho e pensei em desistir por 2 segundos kkkkkkk mas que nada, não ia chegar até ali pra desistir ...mais trilha estreita ladeada por precipícios e a ultima subida pro real cume do PP e finalmente  estavamos no ponto mais alto do sul do Brasil. Infelizmente o mau tempo, chuva e núvens encobriam o que devia ser a mais linda vista naquelas alturas...mas ter chegado lá e vencido os receios e anceios além de todo respeito por esse gigante tão querido já compensava o esforço.
A volta até o A1 foi relativamente rápida, mas ainda tinhamos que desmontar tudo e voltar a longa trilha até a fazenda do Dilson que além cansativa e longa ainda pegariamos uma boa parte a noite.
Cargueira no lombo, fotos do perrengue na chuva que iamos enfrentar na volta, risadas e grito de guerra pra dar ânimo, pé na trilha...
A volta foi longa : chuva, frio e lá no vale das pedras a noite nos pegou...cansados, molhados até a alma e a cargueira pesando o dobro pelo peso, dali pra frente a evolução era lenta. Pra variar meu joelho arrregaçou me obrigava a inúmeras paradas. Já na fazenda fomos recebidos pelo Dilson na casa de apoio da fazenda  e umas pizzas com café quente pra nos reanimar após colocarmos roupas quentes, em minutos parecia surreal que minutos atrás estavamos na mata numa temperatura congelante e na chuva....como sempre as promessas de não fazer mais loucuras como essa não duraram muito...fariamos muitas trilhas com chuva depois dessa....